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Jornal de Araraquara
30/12/1899
 

A esperança e o Natal
Autor: Jornal de Araraquara
Preço: R$ 15.00
(Valor na resolução de 1M)
Opções: 1 MB
 
INFORMAÇÃO
João Baptista Galhardo

Ainda ontem eu contava oito anos de idade. Tinha meus pais. Mais irmãos. Tinha meus avôs. Mais tios e primos. Tinha um cão, meu amigo desde o nascimento, que para me proteger levou um coice de cavalo no meu lugar, salvando minha vida. Era um cachorro não muito grande. Sem raça. Preto com faixa branca nas costas em forma de raio ou corisco, daí o nome que lhe foi dado de Faísca. Quando saía de casa, Faísca me acompanhava pelo menos um quarteirão, vigiando-me até perder de vista. E da mesma forma me aguardava no meu retorno. Era torcedor fanático ao ver-me jogar futebol com os garotos do bairro. Dava-lhe três banhos por semana com sabão caseiro feito com cinza, soda cáustica, sebo e palma de figo da índia. Para deixá-lo cheiroso esborrifava sobre ele algumas gotas de alfazema, presente de um tio que laçou um vidro da seiva na barraca de argola da quermesse do Carmo. Faísca dormia sobre um pedaço de pano ao lado dos pés da cabeceira de minha cama. Eu debruçava no colchão de palha, estirando a mão para acariciá-lo até dormir. Antes, porém, ele subia sobre meu peito, esfregava o focinho frio e úmido no meu nariz, lambia a face direita, fungava no ouvido simulando mordidas, como querendo dizer: "boa noite, eu gosto muito de você". Eu também... e ao acordar o mesmo ritual. Num mês de novembro Faísca ficou doente. Já não dormia aos pés da minha cama. Tinha vergonha de me causar preocupação. Passou a deitar na cozinha, ao lado do fogão de lenha. Quando eu levantava para ver como ele estava, erguia a cabeça, abanando levemente a cauda, dizendo com o olhar: "não se preocupe. Estou bem".
Numa noite não suportei sua ausência, joguei meu travesseiro no chão ao lado dele, colocando sua cabeça junto à minha. Dava para sentir o seu cansaço. Sua respiração ofegante. Dormi com um braço sobre seu corpo. Quando acordei, para minha tristeza a sua inquietação já não existia. Ele estava morto. Perdi meu melhor amigo. Com muito respeito sepultei Faísca no fundo do quintal, colocando até uma cruz com seu nome. Inexplicavelmente nesse lugar, tempos depois, nasceu um pé de cedro, árvore que simboliza a imortalidade. Mesmo tendo certeza de sua morte, alimentava forte esperança de tê-lo de volta.
Acreditava em fadas, milagres e outros mistérios que ainda acredito.
Na noite de Natal não havia ceia nem árvore com estrelas. O Papai Noel não sabia o endereço de casa. Percebia que era meia noite pelo sino da Igreja anunciando a Missa do Galo ou pelos estampidos de fogos estourados à distância. Antes de dormir e muito esperançoso, nessa noite de bons presságios, numa oração de boca fechada pedi ao Menino Jesus que me trouxesse Faísca de volta.
Dormi e sonhei. Faísca me disse: "não fique preocupado. Mesmo que você não me veja ou que eu volte de outra forma estarei sempre ao seu lado e vou protegê-lo a vida inteira".
Acordei em dúvida passageira sobre sua morte.
Quando minha mãe apurava numa panela de ferro o molho de tomate para a costumeira macarronada do almoço natalino, chega o Senhor Maninho, montado em sua mula tordilha. Velho amigo da família. Capataz de fazenda. Depois dos cumprimentos, pediu ao meu pai que ficasse com um cão filhote de menos de mês, pois não tinha com quem deixar, já que viajaria para longe. Tirou o cachorrinho de um embornal pendurado na garupa da mula e entregou para mim. Era preto com a mesma marca nas costas. Mais do que depressa fui para o meu quarto. Coloquei sobre meu peito. Ele esfregou o focinho frio e úmido no meu nariz, lambeu minha face direita e fungou no meu ouvido. Coloquei no chão. Ao andar chamei: "Faísca". Ele virou-se para mim com um olhar maroto: "sou eu mesmo". Percebi que vale a pena sonhar e ter fé. Que o sol nunca se põe pela última vez. Que minha esperança não fora em vão. Essa esperança que deve ser reiterada e fortalecida numa noite de Natal. Esperança de saúde, de paz, de amor, de respeito, de dignidade, de trabalho, de sucesso dos filhos, dos pais e dos amigos. Esperança de um beijo, de uma reconciliação. A esperança de um moribundo de morrer em paz e sem dor. A esperança de consolo. Esperança de fraternidade, sem inveja, luxúria, soberba e arrogância. A esperança é relativa para cada um, conforme o tempo e do combustível necessário para cada felicidade.
Decepcionei-me com Nietzche quando disse que a esperança é o pior dos males porque prolonga o sofrimento. Embora reflexiva a sua afirmação ele só me reconquistou ao afirmar que a esperança é um estimulante vital muito superior à sorte. Tales de Mileto afirmava que a esperança deve ser uma constante na vida de cada pessoa. Natal é uma data simbólica, mas muito própria para renovação ou fortalecimento das esperanças. Não podemos deixar a tristeza fazer ninho na nossa cabeça. A esperança é um estado de espírito. Uma convicção projetada para o futuro como se já fosse o presente. É desejo acompanhado da idéia de satisfazer-se. A noite de Natal que festeja o nascimento é momento adequado para o renascer-se espiritualmente.
Esperança é o sonho dos acordados.
E nesta data todos os sonhos sonhados de olhos abertos podem se transformar em realidade ou pelo menos fortalecida a expectativa deles, dependendo do Papai Noel que cada um carrega dentro de si no trenó da alma.

 
 
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